Câncer de pulmão: sintomas e tratamentos

O câncer de pulmão é hoje um dos tumores mais relevantes em saúde pública. No mundo, foram estimados cerca de 2,2 milhões de novos casos em 2020, representando pouco mais de 11,4% de todos os cânceres. No Brasil, estimam-se cerca de 32 mil novos casos de câncer de pulmão por ano no triênio 2023–2025, segundo o INCA.

Apesar de altamente letal, o câncer de pulmão é também em grande parte evitável, já que o tabagismo responde por cerca de 80–85% dos casos. Entender os sintomas, fatores de risco e opções de tratamento é fundamental para reduzir o impacto desse tipo de câncer.

O que é o câncer de pulmão
Câncer de pulmão se trata do crescimento descontrolado de células anormais no tecido pulmonar, formando um tumor maligno que pode invadir estruturas vizinhas e se disseminar para outros órgãos, as temidas metástases.

De forma geral, ele é dividido em dois grandes grupos:
● Carcinoma de pequenas células (CPPC) – mais agressivo, cresce rapidamente e costuma se disseminar cedo.
● Carcinoma de não pequenas células (CNPC) – inclui adenocarcinoma, carcinoma de células escamosas e carcinoma de grandes células, sendo responsável pela maior parte dos casos.

Essa distinção é importante porque influencia o tipo de tratamento indicado.

Por que é um câncer tão preocupante
Além da alta frequência, o câncer de pulmão costuma ser diagnosticado em fases avançadas. No Brasil, estudos mostram que a maioria dos pacientes atendidos no SUS recebe o diagnóstico em estágios III ou IV.
Globalmente, a taxa de sobrevida relativa em cinco anos gira em torno de 18% (15% para homens e 21% para mulheres). Quando o tumor é descoberto em fase inicial, localizada apenas no pulmão, a sobrevida em cinco anos pode superar 50%. Isso reforça o papel central do diagnóstico precoce.

Principais fatores de risco
Os fatores de risco mais bem estabelecidos incluem:
Tabagismo ativo e passivo
● O consumo de produtos derivados do tabaco (cigarro industrializado, de palha, charuto, cigarrilha etc.) é o fator de risco mais importante, inclusive por pessoas próximas do fumante.

● Estima-se que cerca de 85% dos casos de câncer de pulmão estejam relacionados ao tabagismo.
● A exposição à fumaça do cigarro em ambientes fechados (tabagismo passivo) também aumenta o risco.

Exposição ocupacional e ambiental
● Trabalho com substâncias carcinogênicas, como asbesto, sílica, arsênico, cromo, níquel, cádmio, radônio e outros agentes químicos e físicos, está associado a risco aumentado.
● Profissionais de mineração, construção civil, indústria metalúrgica, borracha, cimento, vidro, produção de pigmentos, entre outros, podem ter maior risco dependendo das condições de exposição.

Outros fatores
● Idade avançada (a maior parte dos casos ocorre entre 50 e 70 anos).
● Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), infecções pulmonares de repetição e
história prévia de tuberculose.
● História familiar de câncer de pulmão e fatores genéticos que aumentam a
suscetibilidade.

Importante: mesmo pessoas que nunca fumaram antes podem desenvolver câncer de pulmão, especialmente na presença de outros fatores de risco.

Sintomas: o que merece atenção
Um dos desafios do câncer de pulmão é que, nas fases iniciais, ele pode não provocar sintomas específicos. Muitas vezes as queixas aparecem quando a doença já está mais avançada. Os sinais mais comuns descritos em diretrizes nacionais e internacionais incluem:
● Tosse persistente ou mudança no padrão da tosse habitual (em fumantes, por exemplo).
● Escarro com sangue (hemoptise).
● Dor no peito, que pode piorar ao tossir ou respirar fundo.
● Falta de ar ou chiado no peito.
● Rouquidão persistente.
● Infecções respiratórias de repetição, como pneumonias na mesma região do pulmão.
● Perda de peso e de apetite sem causa aparente.
● Cansaço intenso (astenia).

Sintomas relacionados a metástases (como dor óssea, alterações neurológicas ou hepáticas) podem aparecer quando a doença já se espalhou para outros órgãos. É importante que qualquer sintoma respiratório persistente, especialmente em pessoas com fatores de risco, deve ser avaliado por um médico.

Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico envolve etapas sucessivas, que começam na atenção básica e avançam para serviços especializados:
1. Avaliação clínica
O médico colhe a história detalhada (incluindo tabagismo, exposições ocupacionais, doenças prévias) e realiza o exame físico.

2. Exames de imagem
○ É comum que a radiografia de tórax seja o primeiro exame.
○ A tomografia computadorizada de tórax permite visualizar melhor nódulos e massas pulmonares e estruturas vizinhas.

3. Confirmação histopatológica
○ A confirmação do câncer é feita por biópsia do tecido suspeito, guiada por exames de imagem ou por broncoscopia, a depender da localização da lesão.
○ O exame anatomopatológico define o tipo de tumor (pequenas células, não pequenas células e subtipos).

4. Estadiamento
○ Após a confirmação, exames complementares (tomografia de tórax e abdome, ressonância de crânio, PET-CT, cintilografia óssea, entre outros) ajudam a determinar a extensão da doença (sistema TNM).

○ O estágio do tumor é fundamental para definir o tratamento e estimar o prognóstico.

E o rastreamento?
Não há recomendação de rastreamento universal (para toda a população) com exames de imagem, pois o balanço entre benefícios e riscos ainda não é favorável. No entanto, diretrizes internacionais, como as da U.S. Preventive Services Task Force, sugerem discutir a realização de tomografia computadorizada de baixa dose em pessoas de 50 a 80 anos com histórico importante de tabagismo (carga tabágica elevada ou que
pararam há menos de 15 anos), sempre em decisão compartilhada entre médico e paciente.

Tratamentos disponíveis
O tratamento do câncer de pulmão é único para cada indivíduo e também depende de vários fatores:
● tipo histológico do tumor;
● estágio da doença;
● idade e condições clínicas do paciente;
● presença de alterações moleculares específicas no tumor.

Em geral, as principais modalidades terapêuticas são:
Cirurgia
A cirurgia é o tratamento de escolha para tumores iniciais, quando o câncer está restrito ao pulmão e o paciente tem condições clínicas adequadas.
Os procedimentos mais frequentes incluem:
● Lobectomia – remoção de um lobo pulmonar (padrão ouro para muitos casos de câncer de pulmão não pequenas células localizado).
● Segmentectomia ou ressecção em cunha – indicadas em tumores pequenos ou em pacientes com reserva pulmonar limitada.
● Pneumonectomia – retirada de todo o pulmão, reservada a situações muito específicas, devido à maior morbidade.

Mesmo após a cirurgia, pode ser indicada quimioterapia e/ou radioterapia adjuvante, dependendo do risco de recidiva.

Radioterapia
A radioterapia utiliza radiação ionizante de forma a suprimir células tumorais ou impedir que se multipliquem. Pode ser empregada em diferentes contextos:
● como alternativa à cirurgia em tumores iniciais, em especial com técnicas
estereotáxicas de alta precisão;
● associada à quimioterapia em doença localmente avançada;
● para controle de sintomas (por exemplo, dor óssea, compressão de estruturas,
metástases cerebrais).

O número de sessões e a dose dependem do estágio da doença, da localização do tumor e das condições do paciente.

Tratamento sistêmico
O tratamento sistêmico envolve medicamentos que circulam pelo sangue e atingem células tumorais em diferentes partes do corpo:
● Quimioterapia – combinações de fármacos capazes de reduzir o tumor, controlar a doença e aliviar sintomas.
● Terapia alvo – indicada para tumores que apresentam alterações genéticas específicas (como mutações em EGFR, ALK, entre outras), identificadas em exames
moleculares. Esses medicamentos agem em alvos específicos das células tumorais.
● Imunoterapia – medicamentos que modulam o sistema imunológico para reconhecer e atacar melhor as células cancerígenas. Em câncer de pulmão não pequenas células avançado ou metastático, pode ser usada tanto isoladamente quanto combinada à quimioterapia, conforme protocolos aprovados.

Cuidados paliativos
Em casos de doença metastática ou sem possibilidade de cura, os cuidados paliativos são fundamentais desde o início. O objetivo é simplesmente controlar sintomas como dor, falta de ar, fadiga, ansiedade e oferecer suporte psicológico, social e espiritual ao paciente e à família, sempre buscando qualidade de vida.

A importância da prevenção
Como a maior parte dos casos está relacionada ao tabagismo, medidas de prevenção primária são cruciais:
● não iniciar o uso de produtos de tabaco;
● parar de fumar o mais cedo possível;
● evitar a exposição à fumaça ambiental;
● reduzir exposições ocupacionais e ambientais a agentes carcinogênicos, seguindo normas de segurança no trabalho.

Quando procurar ajuda
Você deve procurar avaliação médica se apresentar:
● tosse ou rouquidão persistentes (por semanas);
● escarro com sangue;
● dor no peito associada à respiração ou tosse;
● falta de ar progressiva;
● perda de peso não intencional;
● cansaço intenso sem explicação.

Esses sintomas isolados não significam necessariamente câncer, mas precisam ser investigados, especialmente em pessoas que fumam ou fumaram por muitos anos. Este conteúdo é informativo e não substitui consulta com médico ou equipe de saúde. Diante de qualquer sintoma persistente ou preocupação, procure atendimento para avaliação individualizada e discussão das melhores opções de diagnóstico, tratamento e acompanhamento.